Neste Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, um relato feito há mais de 200 anos chama atenção para a longevidade das árvores da Amazônia. Em 4 de outubro de 1819, o botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, acompanhado do naturalista Johann Baptist von Spix e de uma grande equipe de indígenas, partiu de Vila Nova da Rainha, atual Parintins, em direção ao sul para coletar amostras em uma floresta de terra firme.
Durante a expedição, três árvores se destacaram pelo tamanho. Segundo o relato de Martius, seus troncos eram enormes e as raízes se espalhavam por uma ampla área ao redor. Uma delas tinha 25,5 metros de circunferência na base e foi preciso reunir 15 homens para abraçar o tronco.
Martius estimou que aquelas árvores teriam entre 2.052 e 4.104 anos, o que significa que poderiam já existir muito antes de Cristo. A longevidade dos exemplares impressionou o botânico, que refletiu sobre o fato de terem atravessado períodos em que civilizações inteiras surgiram e desapareceram.
“Quando olhamos para uma árvore que pode ter milhares de anos, estamos diante de um registro vivo de uma parte da história da Terra. O relato de Martius chama a atenção não apenas pelo tamanho dessas árvores, mas também pelo que elas representam. A Flora Brasiliensis preserva informações sobre espécies e paisagens observadas há mais de 200 anos e mostra como conhecer a biodiversidade é fundamental para valorizá-la e conservá-la”, explica Fernando B. Matos, pesquisador do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA).
Apesar de parecerem pertencer à mesma espécie, não foi possível identificar as três árvores. As copas, a cerca de 30 metros de altura, impediram a coleta de amostras. Os habitantes locais as chamavam de “jataí” ou “jutaí”.
Do registro histórico às gigantes da Amazônia atual
Mais de 200 anos depois do relato de Martius, árvores gigantes continuam sendo estudadas na Amazônia. Em 2022, pesquisadores chegaram a um angelim-vermelho de 88,5 metros de altura, quase 10 metros de circunferência e idade estimada entre 400 e 600 anos. O exemplar já havia sido identificado em levantamentos anteriores, mas só naquele ano uma expedição conseguiu alcançá-lo presencialmente.
Outras espécies também chamam atenção pelo tamanho. Castanheiras podem ultrapassar 50 metros de altura, enquanto as sumaúmas podem chegar a cerca de 60 metros, mostrando que as grandes árvores que impressionaram os naturalistas no século XIX continuam presentes na paisagem amazônica.
Mais de 10 mil páginas de conhecimento sobre a flora brasileira
A história registrada por Martius integra a Flora Brasiliensis, obra produzida entre 1840 e 1906 é considerada um dos principais marcos da botânica brasileira. Organizada em 15 volumes e 40 partes, reúne informações sobre a identificação e classificação de 22.767 espécies em 10.367 páginas, além de milhares de ilustrações botânicas.
Hoje, esse patrimônio pode ser consultado digitalmente por meio da Flora Brasiliensis Online. O projeto foi desenvolvido em uma parceria entre o CRIA, a Unicamp e o Jardim Botânico do Missouri. Enquanto as imagens foram digitalizadas pelo Jardim Botânico do Missouri e pesquisadores da Unicamp atualizaram os nomes científicos e o CRIA foi assumiu o desenvolvimento do sistema on-line que organiza e disponibiliza todas as informações.
A plataforma reúne as páginas da obra, imagens em alta resolução e informações que permitem explorar o conteúdo produzido por Martius e outros pesquisadores. Também é possível conhecer a Flora Brasiliensis de maneira interativa por meio do projeto do CRIA no Google Arts & Culture, que apresenta histórias, paisagens e espécies registradas na obra, incluindo açaí, cacau, mamão, pequi e outras plantas brasileiras. O ambiente reúne ainda mais de 65 histórias e milhares de imagens.






