
Conferência marca a primeira revisão do Marco de Kunming-Montreal
Quatro anos após a adoção do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (KMGBF), a comunidade internacional chega à 17ª Conferência da ONU sobre Biodiversidade (COP-17) com a expectativa de transformar metas e compromissos internacionais em resultados concretos.
De 19 a 30 de outubro, em Yerevan, na Armênia, os países realizarão a primeira revisão global do progresso das 23 metas definidas pelo Marco, avaliando os avanços alcançados, as lacunas existentes e as medidas necessárias para acelerar os resultados até 2030. A conferência moverá esforços para os mecanismos práticos de implementação, a atração de investimentos e a governança nos territórios.
Acompanhando os debates oficiais, a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura leva à cúpula uma agenda centrada em soluções e modelos já testados. A experiência brasileira demonstra que é viável conciliar alta produtividade agropecuária e conservação ambiental, oferecendo caminhos replicáveis para destravar o financiamento, integrar florestas e lavouras e dar escala à restauração ecológica com segurança de dados.
Abaixo, a rede reuniu os quatro pontos-chave que definirão os rumos da COP-17 da Biodiversidade:
1. Revisão do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal
A primeira revisão do progresso coletivo dos países sobre as 23 metas internacionais será um dos destaques da conferência, que reúne prioridades de conservação e de uso sustentável, além de pontos fundamentais para o setor privado e repartição de benefícios — ou seja, como os proveitos obtidos com recursos naturais podem ser divididos, principalmente, entre as comunidades tradicionais e os povos indígenas.
Nesse sentido, para a cofacilitadora da Coalizão Brasil, Karen Oliveira, o país avançou na elaboração do seu Plano Nacional de Bioeconomia. A rede, inclusive, participou ativamente desse processo de construção que resultou numa legislação específica para bioeconomia no país e este será um dos pontos altos para as discussões na COP-17. “O uso sustentável que gera renda e que protege a floresta traz as pessoas para o centro desse debate, porque elas são as mais beneficiadas. A bioeconomia será uma das prioridades do debate na COP 17.”
Ao mesmo tempo, a revisão global é pertinente para conectar as experiências brasileiras de uso da terra, agricultura, florestas e restauração à agenda de implementação. Para a especialista, o sucesso dessa avaliação dependerá da capacidade dos países de transformar compromissos multilaterais em políticas públicas nacionais efetivas e com impacto territorial concreto.
“A COP-17 tem o potencial de consolidar a virada de chave dos compromissos formais para a execução prática nos territórios”, observa. “O Brasil reúne experiências relevantes sobre como desenhar políticas que conectam as metas globais de biodiversidade à realidade do uso da terra e ao desenvolvimento econômico regional”, afirma Oliveira, que também é diretora para Políticas Públicas e Relações Governamentais da TNC Brasil.
“Para o setor privado, existe a meta 15, que trata dos compromissos de empresas e instituições financeiras com a temática da biodiversidade, com transparência de dados e o cumprimento de compromissos que permitem, justamente, mostrar avanços na proteção e na conservação.”
2. Financiamento para implementação (Meta 19)
O financiamento permanece como um dos temas mais críticos das negociações multilaterais. Sob a Meta 19 do KMGBF, as Partes debatem formas de destravar e direcionar fluxos financeiros públicos e privados para apoiar a conservação, a restauração ecológica e as práticas produtivas sustentáveis em larga escala.
A Coalizão Brasil defende que o cumprimento das metas globais exige a criação de instrumentos econômicos inovadores e a estruturação de ambientes regulatórios favoráveis capazes de mobilizar o investimento corporativo e bancário.
“Existe um debate sobre a sinergia do financiamento entre as diferentes convenções: clima, biodiversidade e desertificação. Nesse momento, o recurso não é suficiente para tudo que é necessário e esse também será um dos pontos debatidos na COP-17, na tentativa de se construir um novo fundo da biodiversidade após o período de 2030”, afirma Oliveira.
3. Restauração e monitoramento com inteligência de dados (Meta 2)
A restauração de ecossistemas degradados (Meta 2) exige métricas confiáveis, governança e integração tecnológica para garantir que áreas recuperadas sejam devidamente mensuradas e auditadas. A rede compartilha na conferência a experiência do Observatório da Restauração, plataforma mantida pela Coalizão Brasil e parceiros, e a articulação com o governo brasileiro para fortalecer o sistema nacional de monitoramento e reporte, fundamental para o acompanhamento da meta nacional de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
4. Agricultura sustentável (Meta 10) e a visão do contínuo florestal
As metas globais não serão atingidas sem a incorporação direta da conservação aos sistemas de produção de alimentos e commodities. No âmbito da Meta 10, a delegação brasileira destaca práticas como os bioinsumos e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), comprovando a compatibilidade entre produtividade agropecuária e resiliência ambiental.
Paralelamente, a rede apresenta o conceito de contínuo florestal (forest continuum), sistematizado na 2ª edição do estudo “O protagonismo das florestas brasileiras na agenda climática global”. A abordagem propõe a integração sinérgica entre florestas nativas preservadas, restauração florestal e silvicultura sustentável, demonstrando que a gestão coordenada do território amplia a cobertura florestal, protege recursos hídricos e gera ativos econômicos e climáticos simultâneos.






