
A emergência climática não é apenas ambiental, mas também uma crise de informação. Ao partir desse diagnóstico, o Projeto Brief, em parceria com o Instituto DX e o Observatório do Clima, acaba de lançar um guia inédito de comunicação estratégica para enfrentar a desinformação e qualificar o debate público no Brasil.
O material foi desenvolvido no âmbito da Rede de Parceiros pela Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima (RPIIC), iniciativa que reúne governo federal, sociedade civil e academia. A rede integra uma articulação global liderada pela ONU e pela UNESCO, em parceria com o Brasil, voltada ao enfrentamento da desinformação climática e ao fortalecimento da confiança pública sobre o tema.
Desenvolvido a partir da articulação entre diferentes organizações e especialistas, o material reúne estratégias práticas para transformar a forma como o tema climático é comunicado, conectando ciência, cotidiano e mobilização social.
O guia parte de um dado que ajuda a dimensionar o desafio: 34% dos brasileiros dizem não saber o que são mudanças climáticas, índice que chega a 54% entre as classes D e E, segundo pesquisa Datafolha. Ao mesmo tempo, três em cada quatro pessoas reconhecem que suas cidades não estão preparadas para eventos extremos.
Esse descompasso, segundo o documento, abre espaço para a desinformação e dificulta a construção de respostas coletivas. “As pessoas sentem a crise no corpo e no bolso, mas não a reconhecem como um fenômeno político e coletivo”, aponta o guia.
Comunicação como infraestrutura da ação climática
Além de um manual técnico, o material propõe uma mudança de abordagem: comunicar sobre clima deixa de ser apenas traduzir dados e passa a ser parte central da própria ação climática.
A publicação defende que a forma como o problema é narrado influencia diretamente o engajamento da sociedade, podendo gerar mobilização ou paralisia.
Entre as principais diretrizes estão:
- Partir da experiência cotidiana, como calor extremo, enchentes e aumento no preço dos alimentos, para tornar o tema mais concreto;
- Criar conexão emocional antes de explicar conceitos, disputando atenção em um ambiente saturado de informação;
- Dar visibilidade a soluções, evitando o excesso de narrativas catastróficas que geram apatia;
- Combater a desinformação com contexto e antecipação, e não apenas com correções reativas;
- Fortalecer a confiança nas fontes, reconhecendo o papel de influenciadores, lideranças locais e comunicadores populares.
- Disputa de narrativa e crise de confiança
O guia também chama atenção para um ponto central do debate climático atual: as diferentes formas de contar a história do clima, e como isso influencia a percepção e a confiança da população. Segundo o documento, a desinformação não prospera apenas por falta de dados, mas também pela crise de confiança nas instituições. Nesse cenário, a comunicação precisa ir além da checagem de fatos e investir em clareza, consistência e construção de vínculos com o público.
Outro alerta é sobre o uso excessivo de mensagens alarmistas, que podem gerar ansiedade e afastamento. Em vez disso, o material recomenda uma comunicação que reconheça o problema, mas aponte caminhos possíveis e benefícios concretos para a população.
Um guia para quem comunica o clima no dia a dia
Voltado a comunicadores, gestores públicos, organizações da sociedade civil, pesquisadores e criadores de conteúdo, o guia funciona como um roteiro prático para ampliar o alcance e a eficácia da comunicação climática no país.
A proposta é construir um repertório comum entre diferentes atores e fortalecer a integridade da informação como base para políticas públicas, engajamento social e ação climática.
“O que está em jogo não é apenas informar melhor, mas criar condições para que a sociedade compreenda, confie e participe das soluções”, resume o documento.
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