
As ilhas oceânicas brasileiras — como Fernando de Noronha, São Pedro e São Paulo e Trindade — estão entre as mais importantes do planeta em termos de endemismo marinho, ou seja, na presença de espécies únicas, exclusivas desses locais.
A conclusão é de um estudo internacional que analisou mais de 7 mil espécies de peixes recifais em 87 ilhas e arquipélagos ao redor do mundo.
O trabalho revela que o potencial de biodiversidade desses ecossistemas tem sido historicamente subestimado, o que pode impactar diretamente políticas públicas e estratégias de conservação.
“Percebemos que as ilhas brasileiras possuem uma importância muito maior do que pensávamos. Elas quase não eram citadas quando se falava em endemismo, mas nossos dados e novas interpretações mostram que são verdadeiros laboratórios naturais da evolução das espécies”, afirma Hudson Pinheiro, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e pesquisador do Centro de Biologia Marinha da USP (CEBIMar).
O trabalho, publicado no Peer Community Journal na quarta-feira, 10 de setembro, e conduzido por Pinheiro em parceria com Luiz A. Rocha (Academia de Ciências da Califórnia) e Juan Pablo Quimbayo (Universidade de Miami), com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, atualiza a compreensão científica sobre endemismo marinho. O estudo propõe o conceito de “endemismo insular-provincial”, que inclui não só espécies exclusivas a uma ilha específica, mas também aquelas que ocorrem em um conjunto de ilhas de uma mesma província biogeográfica e não colonizam áreas continentais próximas.
Segundo os pesquisadores, cerca de 40% das espécies endêmicas se enquadram nessa categoria e apresentam distribuição extremamente limitada — fator que as torna altamente vulneráveis. “Ignorar essas espécies pode levar a interpretações erradas sobre a formação da biodiversidade e sobre quais áreas são mais vulneráveis aos impactos humanos, incluindo as mudanças climáticas”, alerta Quimbayo.
O levantamento apontou que aproximadamente 12% da biodiversidade mundial de peixes recifais é formada por espécies endêmicas de ilhas. Em alguns casos, ilhas distantes apresentam conexões genéticas mais fortes entre si do que com regiões continentais próximas — como ocorre com Santa Helena e Ascensão (territórios britânicos ultramarinos no Atlântico Sul) e com Galápagos e Rapa Nui (territórios do Equador e Chile, respectivamente, no Pacífico) —, desafiando ideias tradicionais sobre isolamento e dispersão de espécies.
“Algumas espécies endêmicas de Fernando de Noronha, por exemplo, ocorrem também no Atol das Rocas ou na Ilha de São Pedro e São Paulo, e vice-versa. Mas são espécies que não colonizaram a região costeira. Portanto, como são ilhas que estão relativamente próximas, as espécies que ocorrem por lá são consideradas endêmicas pelo critério que propomos”, explica Pinheiro.
Essa nova interpretação permite um olhar mais abrangente para as políticas de conservação marinha. “Dimensionar corretamente o tamanho e a vulnerabilidade das populações da fauna de um determinado ambiente é fundamental para as estratégias de proteção marinha. Se o conhecimento é limitado ou restrito, as políticas de conservação tendem a ser limitadas também. O endemismo é uma das características que devem ser consideradas para definir as áreas prioritárias para a conservação”, argumenta o pesquisador da RECN.
O estudo também alerta para o risco de extinção de espécies de distribuição tão limitada. Um exemplo é a Azurina eupalama, peixe exclusivo de Galápagos, que desapareceu após o forte El Niño de 1982/83. “Pequenas alterações em ilhas oceânicas podem causar grandes consequências para espécies que vivem somente ali”, reforça Quimbayo. “O desaparecimento de cada espécie pode gerar um efeito cascata, provocando desequilíbrio ecológico, especialmente em locais mais isolados, onde ocorrem um número reduzido de espécies em comparação à costa”, reforça Quimbayo.
Mergulho em águas profundas
Parte das descobertas vem de expedições a recifes mesofóticos — ambientes marinhos entre 60 e 150 metros de profundidade, com luz reduzida e fauna peculiar. O CEBIMar mantém no Brasil a primeira estação de mergulho científico mesofótico da América Latina, permitindo treinamentos, formação de equipes especializadas e coleta de dados inéditos.
“Nosso apoio se baseia na crença de que a ciência, quando aplicada, gera benefícios concretos para a sociedade. As expedições que apoiamos nas ilhas brasileiras nos últimos anos já atualizaram listas de espécies e revelaram novos registros para a ciência”, destaca Marion Silva, gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, instituição que, ao longo dos seus 35 anos, investiu cerca de 25% de seu orçamento em projetos para a conservação dos ecossistemas marinhos.
Segundo ela, o conhecimento gerado é o primeiro passo para um objetivo maior. A combinação de técnicas avançadas e cooperação internacional tem sido essencial para dimensionar o valor desses ambientes. “Ao revelar a riqueza do endemismo nas ilhas brasileiras, reforçamos a urgência de proteger esse patrimônio. Não se trata apenas de evitar que a biodiversidade desapareça, mas de assegurar que o oceano continue a fornecer recursos, regular o clima e inspirar novas soluções para o futuro”, completa.
| São Pedro e São Paulo: um dos arquipélagos mais diversos do mundo O Arquipélago de São Pedro e São Paulo – localizado a cerca de 1.100 quilômetros de Natal(RN) – é uma das ilhas mais remotas do mundo. Devido ao isolamento, uma grande proporção de sua biodiversidade marinha ocorre exclusivamente em seus recifes rochosos. No entanto, alguns peixes encontrados no arquipélago são compartilhados de forma exclusiva com outras ilhas brasileiras, como Fernando de Noronha e Atol das Rocas (PE). Estes peixes são adaptados às condições oceânicas, possuindo importante papel ecológico nas ilhas. Choranthias salmopunctatus/Foto: Luiz A. Rocha Prognathodes obliquus/Foto: Luiz A. Rocha Choranthias salmopunctatus e Prognathodes obliquus são exemplos de espécies endêmicas exclusivas de São Pedro e São Paulo presentes em uma única ilha. Malacoctenus lianae/Foto: Luiz A. Rocha Tosanoides aphrodite/Foto: Luiz A. Rocha Malacoctenus lianae e Tosanoides aphrodite são exemplos de endemismo insular-provincial, estando presentes em mais de uma ilha oceânica brasileira, como o Arqupélago de São Pedro e São Paulo e Fernando de Noronha. |






