
Com a elevação do nível do mar estimada em cerca de quatro milímetros ao ano, segundo o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), o verão voltou a evidenciar os limites de intervenções emergenciais adotadas no litoral brasileiro.
Em meio ao aumento do fluxo turístico, a adoção de obras como engordas artificiais de praia, molhes de pedra e muros de contenção cresce, mas especialistas alertam para efeitos colaterais ambientais e para a necessidade de soluções de longo prazo baseadas na conservação e restauração dos ecossistemas costeiros.
O alerta é reforçado por dados apresentados pelo professor Alexander Turra, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e pesquisador do Instituto Oceanográfico da USP. Segundo ele, o país já enfrenta um quadro amplo de degradação da linha de costa. “Estamos perdendo as praias no Brasil: cerca de 40% delas estão em estado avançado de erosão. Estamos perdendo um ativo importantíssimo, inclusive para o turismo”, afirma.
Cidades como Balneário Camboriú e Piçarras, em Santa Catarina, tornaram-se exemplos do uso recorrente de engordas de praia — prática que retira areia, geralmente do fundo do mar, para depositá-la na faixa litorânea. Em Piçarras, a obra prevista será a quarta engorda em menos de 30 anos, com investimento superior a R$ 38 milhões.
Engordas de praia
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina observaram que engordas de praia podem alterar a dinâmica natural das ondas e das correntes, com efeitos negativos tanto para a qualidade da água quanto para a segurança dos banhistas. Dados preliminares apontam alterações nos padrões de correntes que podem aumentar eventos de salvamento por afogamento em áreas recentemente alargadas.
Para o professor Alexander Turra, molhes, espigões de pedra e outras estruturas rígidas costumam corrigir um problema pontual, mas criam desequilíbrios em outras áreas da costa e trazem riscos à biodiversidade. “Essas obras podem reter areia de um lado, mas intensificar a erosão do outro”, afirma. “O resultado é um efeito dominó que exige novas intervenções e pode comprometer a continuidade da praia.”
Comprometimento do equilíbrio sedimentar
Turra cita casos no litoral sul da Bahia e no litoral paulista em que empreendimentos foram erguidos em áreas naturalmente vulneráveis ao avanço do mar. A ocupação dessas faixas, muitas vezes com a supressão de ecossistemas costeiros que atuavam como proteção natural — como restingas e dunas —, comprometeu o equilíbrio sedimentar da região.
Como resposta à erosão intensificada, foram construídos muros de contenção em frente aos hotéis. O resultado, porém, foi a perda quase completa da faixa de areia durante a maré alta, tornando trechos antes usados por banhistas praticamente intransitáveis.
“As pessoas não conseguem nem andar”
“Você olha as regiões no entorno e ainda vê aquela areia seca, branquinha. Mas na frente dos hotéis e de grandes estruturas, na maré alta, basicamente não há mais praia. As pessoas não conseguem nem andar, fica perigoso”, afirma. Segundo ele, embora essas obras sejam justificadas como proteção da infraestrutura urbana, acabam agravando o problema ao alterar ainda mais o balanço sedimentar e intensificar a erosão nos próprios trechos onde são implementadas.
Além das intervenções diretas na linha de costa, o pesquisador chama atenção para fatores menos perceptíveis ao público, como a redução do aporte de sedimentos transportados pelos rios. No norte fluminense, por exemplo, o uso intensivo da água do Rio Paraíba do Sul diminuiu a quantidade de sedimentos que chegam à foz.
“A água que chega hoje não é suficiente para carregar o material que naturalmente engordaria as praias. A gente acaba combatendo a erosão na ponta, mas não enfrenta a origem do problema”, diz, ao citar Atafona, no distrito de São João da Barra (RJ), como um dos casos mais emblemáticos no litoral brasileiro.

Soluções Baseadas na Natureza
Para a bióloga Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, ecossistemas como manguezais, restingas, dunas e recifes de coral desempenham papel fundamental na proteção costeira, sendo a sua conservação e restauração considerada uma Solução Baseada na Natureza.
“Esses ambientes absorvem a energia das ondas, mantêm os sedimentos no lugar e amortecem o impacto das tempestades”, afirma. Segundo ela, diferentemente das obras de engenharia tradicional, esses ecossistemas atuam como barreiras naturais e evitam que a erosão seja apenas deslocada para áreas vizinhas. “A praia é dinâmica, mas as estruturas de concreto são estáticas e não se adaptam aos ciclos naturais”, diz.
A importância dos recifes de corais
De acordo com o estudo “Oceano sem mistérios – Desvendando os recifes de corais”, os recifes de coral no Nordeste brasileiro evitam até R$ 160 bilhões em danos apenas por sua função de proteção costeira. Manguezais, por sua vez, armazenam grandes quantidades de carbono e sustentam cerca de 70% das espécies pesqueiras exploradas comercialmente no Brasil em alguma fase de seu ciclo de vida.
Janaína explica que, ao contrário da chamada infraestrutura cinza — como muros e molhes, que interrompem o transporte de sedimentos e “selam” a linha costeira —, os ecossistemas naturais são multifuncionais e adaptáveis. “Além de proteger a costa, eles sustentam a biodiversidade, garantem áreas de lazer, apoiam a pesca, o turismo e ainda contribuem para o sequestro de carbono”, afirma.
Restingas e dunas, por exemplo, conseguem acumular sedimentos e crescer verticalmente, acompanhando a elevação do nível do mar quando preservadas. A publicação “Cidades Azuis: Soluções Baseadas na Natureza para a Resiliência Climática Brasileira” reúne experiências positivas nesse sentido no país.
Apesar de 88% dos brasileiros já terem tido contato com o litoral, grande parte da população ainda é pouco familiarizada com os ecossistemas costeiros. A pesquisa “Oceano sem mistérios – A relação dos brasileiros com o mar | Evolução de cenários (2022-2025)r” revela que, embora 69% dos brasileiros tenham informações sobre as dunas, 61% nunca as visitaram.
No caso de recifes de corais, o conhecimento cai para 62%, com 77% afirmando que nunca visitaram um recife de coral. Em relação aos manguezais, 69% conhecem e 61% nunca os visitaram.
“O litoral é um bem coletivo”
Já as restingas são conhecidas por apenas 40% dos brasileiros, com 80% dizendo que nunca tiveram contato com o ecossistema.
“O litoral é um bem coletivo. Planejar sua ocupação com base em evidências científicas é garantir que ele continue existindo e gerando prosperidade para as próximas gerações, e não apenas para interesses particulares de curto prazo”, defende Alexander Turra.






