
A COP30 chegou ao fim em Belém (PA), oficialmente na sexta-feira, 21 de novembro (porém se estendendo pelo final de semana), com um conjunto de decisões que misturam avanços pontuais em governança climática e frustrações profundas para quem esperava um novo marco na redução global de emissões. O balanço final revela acordos importantes em adaptação e implementação, mas deixa em aberto os temas considerados mais urgentes pela comunidade científica.
Entre os principais compromissos firmados está o Mutirao Decision, um pacto destinado a acelerar a cooperação entre países em projetos de tecnologia limpa, monitoramento climático e financiamento de políticas de adaptação. A conferência também aprovou um mecanismo de aceleração para adaptação climática, criado para destravar investimentos em infraestrutura resiliente, ampliar o acesso de países vulneráveis ao financiamento internacional e padronizar critérios de avaliação de risco climático. Esse mecanismo foi celebrado como um passo concreto para reduzir os impactos de eventos extremos que já fazem parte da realidade em diversas regiões.
A presidência brasileira da COP30 teve como feito a aprovação de 29 documentos de forma unânime pelos 195 países que participaram do encontro na capital paraense.
Esse conjunto de textos ficou conhecido como Pacote de Belém, e está publicado no site da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, da sigla em inglês), âmbito sob o qual se realizam as edições da COP.
Transição energética justa e financiamento para adaptação
De acordo com a presidência brasileira da conferência, as 29 decisões incluem avanços em temas como transição justa, financiamento da adaptação, comércio, gênero e tecnologia.
Entre as maiores conquistas da COP30, está o Fundo Florestas Tropicais para Sempre.
Apesar desses avanços, a conferência terminou sem entregar o acordo mais aguardado: uma diretriz global para reduzir emissões de gases do efeito estufa. Em todas as negociações, a discussão sobre combustíveis fósseis apareceu fragmentada e, ao final, o documento oficial não citou qualquer compromisso com a eliminação gradual do petróleo, carvão ou gás natural. Cientistas e ambientalistas classificaram o resultado como decepcionante, sobretudo diante do aumento da frequência de eventos extremos registrados em 2024 e 2025.
Outro ponto que gerou críticas foi a ausência de uma referência clara ao desmatamento zero até 2030, meta defendida por diversos países amazônicos e considerada central para estabilizar o aquecimento global. Também não houve consenso sobre o chamado Mapa do Caminho, proposta brasileira que buscava orientar a transição das economias para modelos de baixo carbono. Divergências entre países altamente dependentes da exploração de petróleo, como Arábia Saudita, Rússia e Nigéria, travaram o avanço do debate.
“Há uma resistência sobre o tema e havia uma outra possibilidade, que era a de transformar isso em uma agenda importante da COP”, relativizou o embaixador brasileiro e presidente da COP30 André Corrêa do Lago, prometendo estudos pelos próximos 11 meses e meio da presidência brasileira na COP. “Vamos juntar a maior inteligência possível sobre energia fóssil”, disse.

Grupo científico diz que omissão “trai a ciência” e ameaça meta de 1,5°C/Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Traição à ciência
A ausência de menção a combustíveis fósseis e desmatamento nos textos provisórios da COP30 divulgados na sexta-feira, 21 de novembro, levou o grupo de especialistas climáticos do Pavilhão de Ciências Planetárias (formado por cientistas como Carlos Nobre, Johan Rockström e Thelma Krug) a subir ainda mais o tom das críticas em relação ao andamento das negociações na conferência.
“Apesar de um grande número de países se unirem em torno de roteiros para acabar com a dependência de combustíveis fósseis e com o desmatamento — e do impulso dado pelo presidente do Brasil — as palavras ‘combustíveis fósseis’ estão completamente ausentes do texto mais recente. Isso é uma traição à ciência e às pessoas, especialmente os mais vulneráveis, além de totalmente incoerente com os objetivos reafirmados de limitar o aquecimento a 1,5°C e com o quase esgotamento do orçamento de carbono. É impossível limitar o aquecimento a níveis que protejam as pessoas e a vida sem eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento.”
“Algo pelo que lutar”
Na avaliação do secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, “a presidência fez o que a COP não teve coragem: criou por declaração um processo para debater o assunto. Não temos uma decisão, mas temos algo pelo que lutar”, afirmou.
Para o coordenador de política internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo, “Belém entregou o que era possível em um mundo radicalmente transformado para pior. Evitou a implosão do Acordo de Paris, hoje a única coisa a nos separar de um mundo 3ºC mais quente. O Brasil, que foi o berço da Convenção do Clima, por pouco não se torna seu túmulo. Mas os resultados fracos da conferência, que precisou encontrar fora da agenda sua grande vitória política, comprovam o esgotamento do modelo das decisões por consenso e impõem a necessidade de reforma da UNFCCC e das COPs.”
Apesar do encerramento formal da COP30, o Brasil segue com o mandato ativo até o fim de 2026. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da conferência, afirmou que continuará nos próximos meses a busca por consensos que não foram alcançados durante as negociações presenciais. A expectativa é que, nesse período, o país tente aproximar posições, especialmente entre grandes produtores de combustíveis fósseis e nações mais vulneráveis aos impactos climáticos.
Para a comunidade internacional, o resultado da COP30 deixa uma sensação dupla. Houve avanços estruturais na adaptação e em mecanismos de cooperação, mas ainda falta o acordo global que realmente enfrente a raiz da crise climática. As próximas reuniões do mandato brasileiro serão decisivas para determinar se o mundo será capaz de recuperar o ritmo necessário para manter as metas definidas pelo Acordo de Paris.
Com informações do Observatório do Clima e da Agência Brasil.






