Clima mais quente tornou chuvas em Minas Gerais até 20% mais intensas e ampliou tragédia de fevereiro

Em Juiz de Fora, foram 229,9 mm em três dias — mais de um mês de chuva — levando o acumulado mensal a 579 mm, 240% acima da média histórica de fevereiro/Foto: Prefeitura/Matias Barbosa/Divulgação

As chuvas intensas que atingiram Minas Gerais entre os dias 22 e 24 de fevereiro de 2026 foram potencializadas pelas mudanças climáticas causadas pela ação humana e transformadas em um evento extremo de consequências fatais. É o que conclui uma nova análise do ClimaMeter, publicada em inglês.

Segundo o estudo, embora a variabilidade natural tenha contribuído para a formação da tempestade, o aquecimento global intensificou significativamente o volume de precipitação, elevando o potencial destrutivo do episódio. “O aumento na frequência e na intensidade da precipitação extrema é uma das consequências esperadas das mudanças climáticas antropogênicas, e este evento de inundação está alinhado com essas expectativas”, alerta Suzana Camargo, brasileira pesquisadora da Universidade de Columbia.

Em apenas três dias, Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, registrou 229,9 milímetros de chuva — volume equivalente a mais de um mês de precipitação. O acumulado mensal chegou a 579 mm, 240% acima da média histórica de fevereiro. O impacto foi devastador: inundações generalizadas, deslizamentos de terra, pelo menos 53 mortes (com pessoas ainda desaparecidas), evacuações em larga escala e danos extensos à infraestrutura urbana.

“Embora o foco da nossa discussão seja o estado de Minas Gerais, chuvas intensas também afetaram partes de São Paulo e do Rio de Janeiro, com previsão de que mais precipitação continue impactando a região nos próximos dias”, completa Suzana Camargo. “Isso demonstra a necessidade urgente de acelerar medidas de adaptação e implementar estratégias robustas de mitigação de risco de enchentes para proteger as comunidades.”

O que mudou no clima?

A análise do ClimaMeter compara padrões meteorológicos semelhantes em dois períodos — 1950–1987 e 1988–2025 — utilizando dados ERA5 do Copernicus e métodos de análogos climáticos. Ela demonstra que as condições meteorológicas semelhantes às que produziram as enchentes no Brasil em fevereiro de 2026 mudaram em comparação ao passado:

  • A precipitação em eventos comparáveis aumentou em até 6 mm por dia, o que representa condições cerca de 15% a 20% mais úmidas do que antes de o planeta aquecer 1,3°C.
  • As temperaturas próximas à superfície durante situações meteorológicas semelhantes estão agora cerca de 0,8°C a 1,5°C mais altas do que em décadas anteriores, evidenciando um pano de fundo climático mais quente para a tempestade, consistente com as mudanças climáticas.
  • Eventos extremos dessa natureza já são considerados esperados com o atual nível de aquecimento global e com base nas evidências científicas existentes. A tragédia do evento destaca a necessidade de avançar na adaptação e em planos de resposta a desastres para proteger os residentes.
  • Os resultados sugerem que a variabilidade natural, por si só, não pode explicar plenamente o aumento observado na precipitação, apontando as mudanças climáticas impulsionadas pela ação humana como fator-chave contribuinte.

“Nossos resultados confirmam o que cientistas do clima alertam há anos: sob o nível atual de aquecimento, Minas Gerais está se tornando cada vez mais propensa a enchentes catastróficas. Nossa análise mostra que padrões meteorológicos que antes produziam chuva moderada agora geram precipitação substancialmente mais intensa, aumentando seu potencial destrutivo”, disse Davide Faranda, um dos autores do estudo.

”Isso eleva o risco de inundação, particularmente para populações com capacidade limitada de adaptação ou realocação. Sob a perspectiva da adaptação e da equidade, isso é relevante.”

O estudo ressalta que outros fatores não avaliados na análise — como exposição costeira, urbanização em áreas de baixa altitude e vulnerabilidade social — também desempenham papel central na magnitude dos impactos. “A análise evidencia a necessidade de uma gestão de risco de desastres mais adaptativa e de fortalecimento da resiliência, uma vez que inundações mais intensas em um clima em mudança podem se mostrar devastadoras para um número crescente de pessoas vulneráveis e ativos não segurados” destacou Neven Fučkar, da Universidade de Oxford, também autor do estudo.

Os resultados estão alinhados com as conclusões do sexto Relatório de Avaliação (AR6) do IPCC, que indica que o aquecimento atmosférico nas regiões tropicais intensifica a precipitação e agrava impactos hidrológicos em partes do Brasil.

A pesquisa foi conduzida pelo ClimaMeter, projeto financiado pela União Europeia e pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). A metodologia detalhada está disponível na publicação original.

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