Startup cria tecnologia de tratamento e reuso de água para lavanderias

Fundada por dois alunos egressos do curso de Engenharia Ambiental da Faculdade de Tecnologia (FT) da Unicamp, a deep tech Project Aqui oferece às empresas do ramo de lavanderias uma tecnologia eficaz e que requer menos espaço físico/Foto: Divulgação

Presentes nos centros urbanos de todo o Brasil, as lavanderias enfrentam um desafio comum em seus negócios, independentemente de sua modalidade (domésticas, hospitalares, industriais ou hoteleiras): a gestão do uso da água. Elas requerem volumes elevados de água em sua operação, o que faz deste recurso um dos itens de maior peso em seus orçamentos.

Por isso, é comum a adoção de sistemas para o seu reuso, tanto por razões econômicas quanto por ambientais ou regulatórias. No entanto, sistemas para tratar a água para reuso normalmente exigem espaços físicos amplos, que nem sempre estão disponíveis nesses negócios ou apresentam custo elevado para implantação.

Para contornar essas questões e oferecer uma tecnologia vantajosa a essas empresas, dois alunos egressos do curso de Engenharia Ambiental da Faculdade de Tecnologia da Universidade Estadual de Campinas (FT Unicamp), Emmanuel Caponi e Igor Oliveira, se associaram em 2023 para fundar uma startup, a Project Aqui, voltada ao desenvolvimento de tecnologias para o tratamento de efluentes e aproveitamento de água para reusoO diferencial da deep tech é a oferta de um benefício desejado pelas empresas do setor:a implementação de sistemas compactos, que requerem pouco espaço físico para sua instalação.

Caponi, um dos sócios, descreve como surgiu a ideia do negócio: “Há alguns anos, conheci empresas do setor de lavanderias que ofereciam sistemas de tratamento de água para reuso, mas eles eram de grande porte e demandavam áreas extensas. Em geral, isso pode comprometer a viabilidade do negócio, pois o metro quadrado de áreas comerciais tem custo alto e nem todas as lavanderias dispõem de espaço para isso. Junto com o Igor, começamos a estudar uma tecnologia com dimensões reduzidas e assim começamos o seu desenvolvimento. Comprovamos sua eficiência e resolvemos fundar nossa startup para atender esse setor e projetar estações de tratamento de efluentes industriais.”, comenta o empreendedor.

Fomento da FAPESP para estruturar a Project Aqui

Para favorecer o desenvolvimento da tecnologia e do modelo de negócio, inicialmente Caponi e Oliveira recorreram à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Dentro do programa de Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), a FAPESP oferece uma modalidade chamada de PIPE Start, que é uma etapa preparatória para empreendedores que desejam transformar uma ideia com alto potencial de inovação em um negócio de base tecnológica, como é o caso da Project Aqui.

Assim, por meio do PIPE Start da FAPESP, os sócios obtiveram recursos que totalizaram, ao longo do primeiro ano, R$ 93 mil. Segundo eles, os valores foram destinados a bolsa-salário, treinamento, aquisição de equipamentos e a realização de uma pesquisa junto a potenciais clientes, o que favoreceu a estruturação do negócio, como observa Caponi:

“Entrevistamos de 20 a 25 lavanderias e 70% delas relataram que os gastos com água são a sua principal despesa. Como cerca de 60% das lavanderias no Brasil são do tipo doméstica, ou seja, estão situadas em áreas urbanas, é razoável acreditar que muitas delas não contam com grandes espaços físicos. Isso nos permitiu enxergar um potencial de mercado para nossa tecnologia”, complementa o engenheiro.

Assim, os sócios criaram a deep tech, que é um tipo de empresa que surge a partir de uma pesquisa e desenvolvimento (P&D) e é baseada em uma tecnologia. Tendo em mãos um plano de negócios estruturado, a Project Aqui foi aprovada para integrar o programa de incubação da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica da Unicamp (Incamp) e atualmente emprega quatro funcionários (incluindo seus dois sócios). A empresa realiza suas atividades no prédio Núcleo, que integra o Parque Científico e Tecnológico do Unicamp, complexo gerenciado pela Agência de Inovação Inova Unicamp.

Parceria com a Unicamp para aprimorar a tecnologia de remoção de poluentes

Para acelerar o desenvolvimento de sua tecnologia, a deep tech assinou um acordo de parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) com a Unicamp, sob a responsabilidade do professor Renato Falcão, da FT.

O objetivo deste projeto de PD&I é desenvolver um novo reator de leito cerâmico ativado por ozonização, uma tecnologia eficaz na remoção dos corantes presentes em materiais têxteis, que são poluentes descartados com as águas residuais das lavanderias. Além disso, esse tipo de reator apresenta outras vantagens, como Oliveira detalha:

“Este tipo de tratamento é muito importante no setor, e para isso, estamos desenvolvendo um reator de leito em cerâmica com uso de ozônio. Estes tipos de filtros são mais eficientes e têm a vantagem de serem construídos com dimensões reduzidas e custo inferior em relação a outros filtros, além de permitir o reaproveitamento de resíduos gerados nas indústrias cerâmicas. Tudo isso é essencial para as empresas do setor, que precisam se adequar à legislação ambiental”, acrescenta o sócio da startup.

Exigências ambientais para as operações de lavanderias

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), em suas resoluções 357/2005 e 430/2011, estabelece regulamentos para controle da poluição das águas. A presença de corantes nos materiais têxteis é uma questão que afeta as lavanderias, pois eles escurecem as águas descartadas e bloqueiam a entrada de luz, o que prejudica a vida aquática. Por isso, a remoção de corantes da água é uma das prioridades do setor.

“Em virtude dessa legislação, a demanda por filtros eficientes para a remoção de corantes está em alta. Estamos aprimorando nossa tecnologia para que ela, ao mesmo tempo, atenda com eficácia esse requisito e seja economicamente viável às lavanderias”, explica Oliveira.

Além da questão legal, pesa nas lavanderias uma questão econômica, relativa à qualidade da água descartada, como Caponi detalha: “Quanto mais poluída a água é despejada no sistema, mais as companhias locais de saneamento cobram pelo tratamento da água. Elas consideram que terão mais trabalho e custos para purificar a água. Por isso, as lavanderias precisam evitar essa cobrança e controlar melhor o despejo de seus efluentes”, conclui o sócio fundador.

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