De volta à floresta: como o resgate de animais silvestres ajuda a biodiversidade brasileira

Tráfico ilegal, fuga após acidentes, maus-tratos e entrega voluntária afetam quase 40 milhões de animais por ano no Brasil, o que pode levar a consequências graves/Foto: IPBio

Animais silvestres resgatados, seja do tráfico ilegal, vítimas de maus-tratos ou de entregas voluntárias, são um tópico primordial para a preservação da biodiversidade brasileira.

A saída massiva de espécies de seus habitats naturais pode trazer fortes impactos aos ecossistemas, contribuindo com o processo de extinção e gerando um desequilíbrio ecológico importante.

Com uma taxa de 100% de solturacerca de 500 aves, o Instituto de Pesquisa da Biodiversidade (IPBio), atua no resgate desses animais e mostra como o trabalho pode ajudar a virar o jogo.

Dados da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) revelam que cerca de 38 milhões de animais são retirados ilegalmente da natureza brasileira todos os anos.

O biólogo e especialista em readaptação e soltura de espécies do IPBio, Isaías Santos, explica que, embora essa seja a causa primária, não é a única: “maus-tratos e entrega voluntária também contribuem com essa situação. Por isso, buscamos sempre acolher esses animais, independentemente do motivo, até seu retorno para a natureza”.

Com foco nas aves (um dos grupos mais traficados no país), o IPBio desenvolve um trabalho de acolhimento no Centro de Soltura de Aves. “Os pássaros resgatados, geralmente, estão com a saúde comprometida devido ao confinamento extremo e à alimentação inadequada. O caminho de volta à natureza é complexo e cuidadoso”, diz o especialista.

É um trabalho conjunto com centros de reabilitação. Depois do resgate, o animal passa por uma triagem para avaliar seu estado, são realizados exames, reintrodução alimentar e fortalecimento físico. “Apenas os pássaros considerados aptos seguem para o Centro de Soltura do IPBio, e realizam o processo em quarentena, sendo novamente avaliados antes da libertação. Após a soltura, mantemos o monitoramento, pois em alguns casos, eles precisam receber alimentação complementar até que possam se sustentar de forma independente”, conta.

Apesar de eficaz, o processo de reinserção pode enfrentar desafios significativos, como o monitoramento em ambiente denso de vegetação, já que todos os animais voltam à natureza respeitando suas origens. As aves são soltas em locais de mata fechada, que exigem equipamentos especiais, como lentes de longo alcance e altíssima qualidade, para serem acompanhadas pós-soltura.

O trabalho é intenso, mas os resultados trazem esperança. O IPBio faz esse trabalho desde 2013 e, até o momento, 500 pássaros retornaram à natureza com sucesso. Isso é reflexo do conhecimento dos cuidados especiais e da excelência técnica de toda a equipe.

“Cada animal devolvido ao seu ecossistema é uma vitória para a preservação das espécies, o que nos deixa muito felizes. Todo o esforço tem sido recompensado”, comemora o biólogo.

O melhor combate é a conscientização

Para o especialista, o ideal é que o problema seja combatido na fonte, para que o processo de reabilitação e soltura seja utilizado apenas em raros casos acidentais e, para isso, ele aponta um caminho: “a melhor ferramenta de combate é a conscientização, por meio da educação ambiental. Precisamos sensibilizar a população sobre os impactos da ação humana na saúde dos animais e, consequentemente, na biodiversidade do nosso país. É preciso desencorajar a domesticaçãoa compra e o tráfico de animais silvestres e fortalecer institutos, como o IPBio, que atuam fortemente nessa causa. Afinal, mais do que salvar animais, as ações protegem ecossistemas inteiros”, finaliza.

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