Por que as baleias chegarão mais cedo ao litoral brasileiro em 2026?

Embora populações de jubartes e baleias-francas sigam em recuperação, chegada precoce ao litoral brasileiro em 2026 pode estar associada à menor oferta de alimentos nos polos/Foto: Enrico Marcovaldi/Instituto Baleia Jubarte

A temporada de baleias no litoral brasileiro começou antes do esperado em 2026. Pesquisadores já registraram a presença de baleias-jubarte e baleias-francas semanas antes do período habitual de migração. Embora o crescimento populacional dessas espécies possa influenciar o cenário, cientistas apontam que a migração antecipada está, muito provavelmente, associada à menor disponibilidade de alimentos na Antártica, um reflexo direto dos impactos das mudanças climáticas na região polar.

Os primeiros sinais dessa antecipação foram observados ainda no primeiro semestre. Em abril, Ilhabela (SP) registrou o primeiro avistamento de uma baleia-jubarte da temporada. Já no início de maio, uma baleia-franca foi observada em Torres (RS), ocorrência considerada a mais precoce dos últimos 40 anos de monitoramento da espécie na região.

Historicamente concentrado entre os meses de julho e outubro, o período de maior ocorrência da migração de baleias para a costa brasileira representa um dos fenômenos naturais mais importantes do Atlântico Sul. As águas mais quentes e calmas do nosso litoral funcionam como um grande berçário natural, onde as fêmeas dão à luz e amamentam seus filhotes antes da viagem de retorno à Antártica.

Esse ambiente seguro é essencial para a conservação das espécies, especialmente porque, embora as baleias-jubarte não estejam mais na lista de espécies ameaçadas, as baleias-francas ainda são classificadas como “Em Perigo” na Lista Nacional Oficial de Espécies Ameaçadas de Extinção do Brasil.

“O início antecipado da temporada de baleias reforça a importância de acompanharmos cada vez mais de perto as transformações que acontecem no oceano. Esses animais são indicadores da saúde marinha e exercem funções essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas. Quando protegemos as baleias, também protegemos serviços ambientais que beneficiam diretamente a sociedade, como a regulação do clima, a pesca e o turismo sustentável”, destaca Liziane Alberti, oceanógrafa e especialista em conservação da biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Mais do que visitantes: baleias ajudam a regular o clima

Além da importância para a biodiversidade, as baleias desempenham papel fundamental para o equilíbrio climático. “Ao se alimentarem em profundidade e retornarem à superfície, elas ajudam a fertilizar o ambiente marinho com nutrientes que estimulam o crescimento do fitoplâncton, organismo responsável por absorver cerca de 40% do dióxido de carbono produzido no planeta e gerar mais de 50% do oxigênio da Terra. Isso mostra como a conservação desses animais está diretamente ligada à saúde do oceano e ao equilíbrio climático”, explica Camila Domit, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Associação MarBrasil.

Uma única grande baleia pode acumular, em média, 33 toneladas de carbono ao longo da vida, enquanto um carvalho-vivo – uma das árvores mais eficientes na captura de carbono, retém cerca de 12 toneladas.

No caso das jubartes que frequentam a costa brasileira, estima-se que a população atual represente entre 700 mil e 875 mil toneladas de carbono armazenadas na natureza.

Um estudo do Instituto Baleia Jubarte e da Great Whale Conservancy, em parceria com pesquisadores internacionais, calculou que as baleias que utilizam a costa brasileira geram aproximadamente US$ 82,5 bilhões em serviços ecossistêmicos ao longo de suas vidas, considerando benefícios relacionados à captura de carbono, fertilização do oceano e turismo de observação.

Temporada impulsiona turismo, ciência e conservação

A expectativa para 2026 é de aumento na movimentação turística e científica associada à observação de baleias. Municípios como Ilhabela e São Sebastião (SP) ampliaram ações de monitoramento e fiscalização, incluindo o uso de drones e embarcações credenciadas para garantir a segurança dos animais e dos visitantes. Em Santa Catarina, a Rota da Baleia Franca ganhou uma nova estrutura de observação voltada à educação ambiental e ao turismo científico.

Em janeiro de 2026, o Tratado Global do Oceano entrou em vigor após ser ratificado por mais de 60 países, incluindo o Brasil, e representa um avanço importante para a proteção das espécies migratórias ao criar mecanismos para ampliar áreas marinhas protegidas em águas internacionais e contribuir para a meta global de proteger 30% do oceano até 2030.

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