
A região Nordeste do Brasil foi uma das maiores usuárias de lenha ou carvão para cocção entre 2016 e 2022, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O uso de lenha para cocção de alimentos é um indicador de pobreza energética e também contribui para o desmatamento de vegetação nativa.
Neste contexto, o projeto “Na Rota do TamanduAí”, realizado pelo Instituto Tamanduá, executa uma nova iniciativa: a distribuição de fogão ecoeficiente para comunidades tradicionais ribeirinhas localizadas dentro do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
Contemplada pelo projeto e moradora de Barreirinha (MA), município inserido no PARNA, Maria Antonia Ferreira Diniz, 63 anos, viveu a transição do uso da lenha para o carvão e, só recentemente, aderiu o gás a botijão como complemento.
Maria Antonia Ferreira Diniz/Foto: Raissa Rocha
A mãe de Maria Antonia utilizava lenha para cocção, mas a prática parou quando o pai iniciou a produção de carvão. Para isso, ele teve de realizar rotineiras extrações das áreas perto de onde moravam – prática culturalmente conhecida como “caieira”.
97% das espécies arbóreas utilizadas como consumo energético no Nordeste são provenientes da mata nativa, de acordo com a pesquisa “Pobreza energética e transição justa: usos de carvão e lenha para cocção no Brasil”.
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, localizado no estado do Maranhão, é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, portanto, não pode sofrer qualquer supressão de sua vegetação original.
Composto pelo bioma marinho costeiro, com influências do Cerrado, da Caatinga e da Amazônia, o PARNA compreende uma área de transição formada por dunas e lagoas de água doce que abriga ecossistemas como o manguezal e a restinga.
O bioma da Caatinga é a origem de cerca de 80% da lenha e carvão obtidos no Nordeste. O projeto “Na Rota do TamanduAí” atua nessa região justamente por ser uma área de grande biodiversidade de ecossistemas e por ser habitat de diferentes espécies de xenartros, incluindo o tamanduaí (Cyclopes didactylus), que é a espécie guarda-chuva do projeto.
Considerada a menor espécie de tamanduá do mundo, o tamanduaí é encontrado nos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica nordestina. “Ao mesmo tempo em que possui uma grande importância ambiental, o Parque Nacional Lençóis Maranhenses também sofre pressões, principalmente relacionadas ao turismo e à ocupação do território. Por isso, existe a necessidade de fortalecer ações de conservação e buscar formas de utilização do território de maneira sustentável, envolvendo também as comunidades nesse processo, além da busca por mais informações sobre as diferentes espécies de xenartros e como elas utilizam esse território”, ressalta Elayne Barroso Sousa, médica veterinária gestora da base do Instituto Tamanduá em Barreirinhas, moradora local e articuladora na região.
Fogão ecoeficiente consome ¼ a menos de lenha
Os fogões ecoeficientes são construídos com uma tecnologia que reduz a quantidade de lenha utilizada nos fogões tradicionais, diminuindo a degradação do ecossistema local para a retirada de madeira.
Com esse avanço de construção, também há redução na retenção de fumaça dentro de casa, contribuindo com a qualidade de vida das famílias.
A poluição doméstica pode causar sérios danos à saúde de quem fica exposto à ela, que tendem a ser mulheres e crianças, residentes de áreas rurais e pessoas de classes de renda mais baixa, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, 17,1% dos domicílios brasileiros (cerca 12,7 milhões de domicílios) usavam, de forma não exclusiva, a biomassa (lenha ou carvão) para cozinhar. Destes 17%, somente 1% dos domicílios (cerca de 740 mil domicílios) faziam uso exclusivo de biomassa para cozinhar, os 16% restantes faziam uso em conjunto com o gás de botijão.
A maioria desses domicílios conta com pelo menos um fogão a lenha, tanto pelo acesso à madeira, como pela compra de gás de botijão para auxiliar na cocção.
A escolha do tipo de combustível a ser usado depende do tipo de preparo: o fogão a gás tende a ser usado para preparos rápidos, como o café, enquanto que o fogão a lenha tende a ser usado diariamente para cozimentos mais lentos, como o de feijão.
O Ecofogão funciona com ¼ da biomassa de uma lenha grossa, sendo gravetos finos, sabugos de milho e cascas de árvores. Já o fogão convencional é alimentado apenas por troncos espessos.
Esses fogões a lenha, ou a carvão, possuem um aproveitamento incompleto da biomassa, o que apresenta baixa eficiência energética e causa um consumo maior – pois o aproveitamento do calor não é completo e a queima ocorre mais rapidamente.
Entrega dos fogões ecoeficiente está focado em mulheres de comunidades tradicionais ribeirinhas
O projeto “Na Rota do TamanduAí” tem a meta de entregar até 3 fogões por mês, priorizando mulheres que estão iniciando o turismo de base comunitária na região do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. “A ideia é que, a partir do momento que aconteça a entrega do ecofogão, a gente consiga alavancar a produção dessas mulheres e expandir o comércio delas”, explica Elayne Barroso Souza, gestora da base do Instituto Tamanduá em Barreirinhas (MA).
As mulheres das comunidades participam das ações do projeto, inclusive por meio de atividades que geram oportunidades de trabalho e valorizam seus conhecimentos e sua participação na conservação da natureza. Essa participação é muito importante porque muitas dessas mulheres são responsáveis pela organização e pelo sustento de suas famílias e têm um papel muito ativo dentro das comunidades.
Quando oportunidades são criadas para que elas participem das ações de conservação, o projeto também está fortalecendo sua autonomia, valorizando seu trabalho e reconhecendo seu papel como agentes importantes na proteção do território.
Uma das mulheres contempladas pela iniciativa foi Maria Antonia Ferreira Diniz, moradora do povoado Baixa da Onça, em Barreirinhas. Maria Antonia relembra que depois que o pai começou a produzir carvão para a família e usar gás de botijão como complemento, nunca mais a lenha foi usada.
“Agora, com essa nova tecnologia do fogão ecoeficiente, vamos voltar a usar a lenha. Essa também é uma maneira de economizar na compra de gás e carvão. Eu acho bom voltar aos velhos costumes de minha mãe, mas com uma nova estrutura!”
Para articular com a família previamente, a gestora Elayne, moradora do povoado Mandacaru, também localizado em Barreirinhas, realiza uma abordagem especial pois sabe como “as dinâmicas funcionam na região”.
“Aqui nos Lençóis, precisamos ir de casa em casa e sempre acompanhada de alguém local, porque é necessário conquistar essa confiança dos comunitários. Quando nossa equipe é recebida, temos a possibilidade de apresentar o projeto e perguntamos sobre seus conhecimentos sobre o tamanduaí e como essa espécie é importante para a natureza. Essa integração é fundamental, porque a comunidade não está apenas recebendo as ações, mas participando ativamente da construção delas. Quem vive no território conhece sua realidade, suas mudanças e seus desafios. Então, quando unimos esse conhecimento das comunidades ao conhecimento técnico e científico, conseguimos desenvolver ações de conservação que fazem mais sentido para aquele território e que têm maior possibilidade de continuidade.”
Felipe Saturnino, educador ambiental no Instituto Tamanduá, complementa que neste diálogo é demonstrado não só os impactos negativos da prática cultural “caieira” – extração de vegetação verde nativa -, mas também, a solução para mitigar o desmatamento.
“Temos que entender o contexto em que essas comunidades tradicionais ribeirinhas vivem. Então, trazemos o fogão ecoeficiente como uma solução, seja para a diminuição no desmatamento e, consequentemente, no impacto na vida do tamanduaí; seja para o aumento de eficiência na cocção, que contribui para o turismo de base comunitária e a renda dessas participantes do projeto.”






