A tecnologia que transforma CO₂ em combustível sustentável para aviões

Fábrica de combustível de aviação Air Plant One/Foto: Twelve/Divulgação

A aviação é um dos setores mais difíceis de descarbonizar. Dependente de combustíveis de alta densidade energética, o transporte aéreo global consome cerca de 378 bilhões de litros de combustível por ano, enquanto os combustíveis sustentáveis para aviação, conhecidos como SAF, ainda representam apenas 0,3% desse volume.

É nesse contexto que a startup americana Twelve inaugurou, no estado de Washington, a AirPlant One, uma unidade industrial criada para transformar dióxido de carbono capturado em combustível de aviação. A proposta é usar CO₂ e energia renovável para produzir um combustível sintético com potencial de reduzir em até 90% as emissões em comparação com o querosene convencional.

O processo começa com o CO₂ capturado de uma usina de etanol. Esse gás é direcionado para um sistema movido a eletricidade renovável, onde é convertido em gás de síntese, também chamado de syngas. Depois, o material passa por novas etapas até se tornar petróleo sintético e, por fim, combustível de aviação. A versão desenvolvida pela Twelve recebeu o nome de E-Jet.

Mistura de combustíveis

Segundo a empresa, o combustível é quimicamente equivalente ao querosene usado atualmente nos aviões. A diferença é que, por enquanto, ele ainda precisa ser misturado ao combustível fóssil tradicional. Nos Estados Unidos, a Administração Federal de Aviação autoriza o uso de misturas com até 50% de combustível sintético.

Essa limitação não está ligada aos motores, mas a detalhes dos sistemas de combustível das aeronaves. O querosene derivado do petróleo contém compostos chamados aromáticos, que influenciaram o projeto de vedações de borracha usadas em aviões mais antigos. Aeronaves mais recentes já contam com materiais atualizados, o que pode abrir caminho para o uso integral desse tipo de combustível no futuro.

A produção inicial da AirPlant One ainda é pequena diante da demanda global: a unidade foi projetada para fabricar pouco mais de 200 mil litros por ano. Mesmo assim, os primeiros lotes já começaram a ser destinados a companhias aéreas para uso comercial. A Alaska Airlines, investidora e parceira estratégica da Twelve, deve utilizar o combustível em seus voos quando a empresa atingir suas metas de intensidade de carbono.

A companhia aérea já utiliza combustíveis sustentáveis produzidos a partir de resíduos oleosos, como óleo de cozinha usado e gorduras descartadas. No entanto, essas matérias-primas são limitadas. A produção a partir de CO₂ surge como uma alternativa de maior escala potencial, já que o gás é emitido em grandes volumes todos os anos.

Custo é um dos principais desafios

O custo ainda é um dos principais entraves. A Twelve não divulgou valores, mas o combustível sintético segue mais caro do que o querosene convencional. Para apoiar a viabilização inicial do projeto, a Alaska Airlines firmou uma parceria com a Microsoft, que está adquirindo créditos de carbono de Escopo 3 associados à iniciativa.

Apesar dos volumes ainda modestos, o projeto reforça uma tendência importante para a aviação: a busca por combustíveis que combinem redução de emissões, produção local e maior segurança de abastecimento. Em um setor exposto à volatilidade do petróleo e a crises geopolíticas, soluções como essa podem ganhar relevância não apenas pelo impacto ambiental, mas também pela capacidade de tornar a cadeia de combustíveis mais resiliente.

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