
Pôr-do-sol visto da copa das árvores da torre do MUSA (Museu da Amazônia)/Foto: Natasha Olsen
Quando se fala em biodiversidade amazônica, é comum pensar em grandes árvores, rios e animais emblemáticos. Afinal, o maior bioma do país, com a maior bacia hidrográfica do planeta e cerca de 20% da água doce disponível no mundo, concentra cerca de 40 mil espécies de plantas, 300 espécies de mamíferos e 1,3 mil espécies de aves.
No entanto, uma parte fundamental da vida na floresta está escondida a olho nu. Fungos, bactérias e outros microrganismos participam de processos essenciais para o funcionamento dos ecossistemas e representam uma parcela da diversidade biológica de extrema importância, tanto para o equilíbrio ecológico quanto pelos efeitos que podem exercer sobre o ser humano e a natureza.
“A maior parte das plantas e animais não sobrevive sem os microrganismos, que decompõem a matéria orgânica. Sem eles, o bioma amazônico não existiria”, diz Márcio Miranda, um dos fundadores do Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), engenheiro agrônomo e diretor-geral do Centro de Bionegócios da Amazônia.
Períodos extremos de seca, queimadas e cheias podem alterar não apenas a vegetação, mas também comunidades de organismos microscópicos e processos fundamentais para o funcionamento do ecossistema.
“Esses extremos impactam diretamente a dinâmica das populações de plantas, animais e microrganismos. Os ecossistemas têm limites para sua adaptação a esses eventos, tendo como condição básica a recomposição da diversidade. Pequenas populações de espécies endêmicas podem levar à sua extinção, com perdas irreparáveis para o meio ambiente”, afirma Miranda.

Início da época de seca no Rio Negro, Amazonas/Foto: Natasha Olsen
COPs ampliam o debate sobre conservação
Em outubro e novembro, a Amazônia deve voltar ao centro das discussões internacionais, com a realização da COP17 (Conferência da ONU sobre Biodiversidade) e da COP31 (31ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas). Para Miranda, o momento é marcado por uma convergência crescente entre as agendas de biodiversidade, mudanças climáticas globais e desertificação.
Segundo o especialista, essa aproximação amplia o espaço para discutir mecanismos de financiamento voltados ao uso sustentável dos ativos da biodiversidade e seus impactos sobre o clima. A valorização desses ativos, associada a investimentos locais em infraestrutura e ao fortalecimento das cadeias produtivas da região, pode contribuir para ampliar a renda de comunidades ribeirinhas e povos originários e reduzir a pressão sobre a floresta.
“Quanto mais valor de mercado é atribuído a esses ativos, maiores são as chances de conservação do core florestal na Amazônia”, fala Miranda.
Ciência, Tecnologia e Inovação devem caminhar ao lado dos conhecimentos tradicionais, dos modos de vida e da cultura das populações amazônicas. Na avaliação de Miranda, a conservação da biodiversidade, a redução do uso de combustíveis fósseis e a promoção da sociobioeconomia precisam avançar com maior dinamismo e comprometimento multilateral.
Mapear a biodiversidade ajuda a orientar ações de conservação
A transformação de dados sobre a biodiversidade em conhecimento é parte desse processo. Os sistemas desenvolvidos e gerenciados pelo CRIA reúnem informações sobre diferentes espécies, ambientes e sua distribuição pelo território, permitindo identificar focos de diversidade e apoiar a definição de áreas prioritárias para a proteção.
De acordo com Miranda, esse trabalho integra uma cadeia de valor do conhecimento, na qual dados são transformados em informação, que gera conhecimento e, posteriormente, competências para a elaboração de planos, políticas públicas e estratégias relacionadas à biodiversidade.

Amazônia regula o clima e os ciclos de chuvas/Foto: Natasha Olsen
A conexão dos registros de biodiversidade com dados climáticos também permite avaliar os impactos das mudanças ambientais na Amazônia e fora dela. A importância da região ultrapassa os limites da floresta: a umidade produzida pelo bioma participa da formação dos chamados “rios voadores”, que influenciam o regime de chuvas em áreas importantes para a produção agropecuária, especialmente na Amazônia e no Centro-Oeste. A região concentra cerca de 80% das reservas de água doce do Brasil, recursos que participam de ciclos hidrológicos em escala global.
Apesar dessa integração, o distanciamento entre os grandes centros urbanos e a floresta pode dificultar a compreensão sobre a importância da conservação. A valorização da biodiversidade também deve caminhar junto ao desenvolvimento econômico e social. Miranda acrescenta que investimentos capazes de ampliar a geração de emprego e renda, associados à agregação de valor aos produtos da biodiversidade e ao extrativismo sustentável, são importantes para conter o avanço do desmatamento na região.
“A tarefa de manter a floresta em pé não concorre com o desenvolvimento econômico e social. Sempre que os mecanismos voltados para o aumento de emprego e renda não funcionam, a floresta paga um preço alto”, conclui.
Você sabia?
O Dia da Amazônia é celebrado em 5 de setembro, data que remete à criação da Província do Amazonas, em 1850, durante o reinado de Dom Pedro II. A data foi escolhida para marcar a importância da região e reforçar a atenção para a proteção da Amazônia e de sua biodiversidade.



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