
As transformações no clima deixaram de ser uma preocupação abstrata para o futuro e passaram a ditar a rotina, a saúde e as decisões mais profundas de vida das novas gerações. É o que aponta o diagnóstico inédito da pesquisa JUCAMP (Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas), realizada pelas organizações Em Movimento e Minha Campinas, com apoio da Fundação FEAC e assessoria técnica da Rede Conhecimento Social (ReCoS).
O levantamento entrevistou 600 pessoas entre 15 e 29 anos para entender a interseção entre raça, território e emergência climática no contexto urbano. Confira cinco fatos revelados pelo estudo:
- A crise climática já altera o desejo de ter filhos e os planos de futuro
Mais de 58% dos jovens admitem que as mudanças no clima influenciam diretamente suas expectativas de futuro. O impacto atinge até mesmo o planejamento familiar: 34% dos entrevistados afirmam que passaram a questionar o desejo de ter filhos por conta da crise climática e das incertezas ambientais.
- O clima extremo afeta a saúde mental de 70% dos jovens
Sete em cada dez entrevistados (70%) relatam sentir impactos negativos na saúde mental provocados pelas alterações bruscas de temperatura e eventos climáticos extremos. As principais manifestações emocionais apontadas pela juventude são sentimentos de preocupação (23%), ansiedade (13%) e medo (13%).
- Chuvas e ventanias travam o transporte, os estudos e o trabalho
A falta de infraestrutura básica transforma o clima em uma barreira diária. 73% dos jovens enfrentam dificuldades para se locomover de ônibus em dias de chuva forte, cerca de 70% sofrem com interrupções de internet e energia durante tempestades e ventanias, e 60% afirmam que o calor ou as chuvas prejudicam diretamente seu rendimento escolar ou profissional. Em Campinas, apenas 2,7% das salas de aula da rede pública estadual contam com climatização.
- O impacto ambiental tem CEP e a desigualdade é percebida na pele
Para 79% dos entrevistados, pessoas ricas e pessoas pobres sofrem os efeitos das transformações climáticas de formas completamente desiguais. Embora sintam essa disparidade no dia a dia do bairro, conceitos formais como “racismo ambiental” e “justiça climática” ainda são desconhecidos por 42% e 50% dos jovens, respectivamente, mostrando a urgência de ampliar o debate e o letramento sobre o tema.
- Há alta consciência sobre a crise e engajamento prático no consumo
94% dos jovens reconhecem que a humanidade vive uma crise climática — embora 27% deles nunca tivessem ouvido a expressão exata antes da pesquisa. No dia a dia, essa percepção se traduz em ação doméstica: 90% dos entrevistados praticam ativamente o consumo consciente de água e energia em suas casas para evitar desperdícios e conter despesas.
Evidências para qualificar políticas públicas
De acordo com Iasmim Vieira, da coordenação de Projetos do Em Movimento, os dados comprovam que o impacto climático na juventude é físico, emocional e demográfico. “Quando a maioria dos jovens admite hesitar sobre constituir família por incertezas climáticas, percebemos que o impacto é real e está em curso. A falta de infraestrutura nos bairros transforma o clima em um obstáculo direto para quem tenta estudar ou trabalhar nas periferias”, avalia.
Para Tatiane Zamai, gerente de Desenvolvimento Social da Fundação FEAC, o estudo demonstra como o conhecimento qualificado fortalece os territórios. “A produção de conhecimento ganha sentido quando fortalece a capacidade dos territórios de interpretar seus desafios e construir respostas coletivas. Transformar a experiência das juventudes em evidências permite que as decisões sejam qualificadas e contribuam para políticas públicas mais conectadas às realidades locais”, destaca.






